O paraíso virou concreto
Praia do Francês, Marechal Deodoro (AL). Oito anos de especulação imobiliária vistos por satélite.
A Praia do Francês não perdeu mata. Ela ganhou telhado. Entre 2018 e 2025, a faixa costeira de Marechal Deodoro passou de 0,90 km² para 1,52 km² de área construída — cerca de doze campos de futebol por ano, praticamente em linha reta. Não é uma impressão de quem vive ali: é o que o satélite mede, a cada doze dias, desde 2018.
2018 · 0,90 km²
2025 · 1,52 km²
Em laranja, tudo o que a regra classifica como construído. Arraste para comparar — no celular, deslize com o dedo; no teclado, use as setas.
O que foi medido
Radar enxerga estrutura: parede e telhado devolvem o sinal com força, areia e água não. O sensor ótico separa o que é vegetação. Combinando os dois, dá para marcar o que é construção sem depender de céu limpo — e sem confundir telhado com canavial, que muda de cor ao longo do ano enquanto o telhado fica igual.
A praia encheu. O caminho até ela explodiu.
A orla é a que menos cresce dos três recortes medidos: já estava bastante ocupada em 2018. A expansão empurrou para dentro, ao longo da via de acesso — e o município inteiro quase dobrou a área construída no período.
| Recorte | 2018 | 2025 | Variação | p |
|---|---|---|---|---|
| Praia do Francês | 0,90 km² | 1,52 km² | +68% | 3×10⁻⁶ |
| Eixo Barra Nova–Francês | 0,75 km² | 1,61 km² | +115% | 5×10⁻⁴ |
| Marechal Deodoro | 4,86 km² | 9,58 km² | +97% | 2×10⁻⁴ |
Os três recortes se contêm: a Praia do Francês está dentro de Marechal Deodoro. A comparação, portanto, mede se a costa cresce acima ou abaixo da média do território que a inclui.
Casas de veraneio que ficam vazias
O Censo conta separado o domicílio que existe, tem dono e fica desocupado quase o ano inteiro. Nessa categoria, Marechal Deodoro cresceu duas vezes e meia mais rápido que o Brasil: de 1.865 para 5.144 casas entre 2010 e 2022.
A cidade ganhou mais casa vazia do que morador. A população subiu 31% (de 45.977 para 60.370 pessoas) e os domicílios ocupados, 60%. Os domicílios vagos subiram 120%, e as casas de veraneio, 176%.
Quase um em cada três imóveis do município passa o ano fechado. No mesmo período, o salário médio mensal de quem trabalha na cidade continua em 2,6 salários mínimos: em reais correntes sobe todo ano, em poder de compra não saiu do lugar.
Como este estudo foi feito
Satélite público e censo aberto. Todo número aqui pode ser refeito por qualquer pessoa — inclusive contra nós.
construído = VV ≥ −7 dB (mediana anual do Sentinel-1 RTC)
e NDVI ≤ 0,45
e desvio-padrão temporal do NDVI ≤ 0,14
# órbita relativa 9, descendente, janela jan–ago em todos os anos
Fontes e limites
- Área construída — Sentinel-1 RTC e Sentinel-2 L2A (ESA/Copernicus). Validação por amostra de 60 pontos conferidos visualmente: 90% de precisão e 36% de omissão em terra. A regra prefere perder construção a incluir vegetação, então a área medida é um piso, não um teto.
- Domicílios, população e renda — IBGE, Censos 2010 e 2022 (agregados 1310 e 4711) e Cadastro Central de Empresas (agregado 1685).
- Não medido — valor de transação e de aluguel. Sem dados de ITBI, este estudo não afirma valorização; afirma o que está medido.
- Descartado — Maceió foi medido e excluído: em área verticalizada o radar sofre layover e sombra geométrica, e a série perde sentido. Alagoas inteiro também não é medível assim, porque três órbitas diferentes cruzam o estado.